quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

SURPRESA e APRENDIZADO


Surpresa e aprendizado

Fui levado a um local solitário. Caminhei um pouco por uma trilha estreita e avistei uma casa. Na verdade era um casebre velho. Portas escoradas, pintura descascada e suja, janelas envelhecidas com vidros quebrados. Telhado semi-destruído, em precárias condições. Tive a certeza que era desabitada. A sua volta o mato crescia livremente tomando os poucos degraus da escadinha assolada e torta que levava a sacada da frente.
A Entidade que levou-me aquele sítio, convidou-me a entrar. Não entendia porque estava ali. Mesmo confiando, tive medo de entrar na casa.  Ela afiançou-me, “está tudo bem, nada a temer. Entre!”.
Com passos cautelosos subi os degraus quase soltos e andei com cuidado sobre o piso de madeira apodrecida. A porta estava escorada e tudo era tão real e nítido que pude ver as dobradiças torcidas e enferrujadas na porta de madeira velha. Entrei e não pude ver nada de imediato naquela penumbra. O cheiro era fétido e incomodava. Ouvi um gemido fraco. Fiquei parado, procurei pela Entidade Amiga e já não a percebi do meu lado. Novamente um certo temor e uma ojeriza do local. Aos poucos meus olhos foram se acostumando e pude ver melhor o ambiente. Notei a sujeira entre os destroços, muitas seringas por toda parte, papéis, latas e garrafas de bebidas vazias no chão.
Fui caminhando até chegar na parte que me pareceu ser a cozinha, agora bem destruída, seguia o som do gemido. Encostado em algo que tinha ares de ser um balcão, assustei-me ao ver um espírito magérrimo, em pé, curvado sobre esse balcão, gemia baixinho. O ser parecia estar sofrendo um processo de dor inexprimível. Contorcia-se todo e gemia. Recebi uma forte impressão de que deveria orar. Elevei meus pensamentos ao Alto e pedi socorro para o sofredor.
Observei então seu corpo cadavérico. Suas veias eram grossas e saltavam dos braços pálidos e entrezilhados. Notei que haviam picadas por todo seu corpo, entre os dedos haviam essas feridas também, pareciam picadas de agulha que infeccionaram.  Seus olhos estavam esvoaçados, pareciam vazios e sem vida. Totalmente fora de si, parecia um quase zumbi com aquele olhar gazeado. Notei-lhe a magreza das costas ossudas. Uma calça velha caia-lhe da cintura, era um trapo de jeans sujo e roto. Uma corda de sisal servia-lhe de cinto segurando a calça na cintura fina. A barriga escovada para dentro, as costelas à mostra e o peito anverso, quase cavo no arcabouço do tórax.
Apiedei-me do ente sofredor e derramei algumas lágrimas de aflição por vê-lo naquela situação deplorável. Ele virou, mas não parecia ver-me, notei-lhe então o rosto, a barba hirta, retesada na face escavada, os olhos bem fundos e ao redor deles uma concha negra com bolsões sombrios. Do nariz escoria um líquido amarelo-esverdeado, os dentes podres e a língua cheia de cortes. Fedia como algo apodrecido por dias. Certamente se qualquer encarnado pudesse vê-lo naquelas condições, acreditaria tratar-se de uma monstruosidade das trevas.
Novamente, com clemência e sem saber que atitude tomar, orei com todo fervor da minha alma, pedindo por ajuda. A mesma Entidade que me trouxera até ali, apareceu nimbada de luz. Sem a necessidade de abrir a boca, disse-me com afabilidade.
-     Confie, sua lição continua. Concentre-se um pouco mais no pensamento do nosso irmão. Aproxime-se dele. Não se preocupe, ele não pode notar-lhe a presença.”

Acheguei-me e concentrei-me melhor no pensamento condensado. Vi então convergir em mim mesmo o que ele balbuciava intimamente. Abismei-me com os pensamentos que agora pareciam meus. Era uma única palavra repetida incessantemente. Cocaína, cocaína, cocaína, cocaína... Aquilo não cessava, era uma monoidéia dominante, constante, fortíssima, não me dava um único segundo de descanso. Apavorado, chorei ao sentir em mim mesmo seu desespero e dor.
Nesse momento a Entidade de Luz desprendeu-me e disse:
-     “Está vendo meu irmão a situação deplorável de um viciado em drogas no mundo astral? É bem pior a situação, piora muito do lado de cá. Além de comprometerem o corpo perispiritual, comprometem totalmente a mente junto a dependência, pois nada mais fazem ou buscam no lado de cá a não ser as drogas e os parceiros para o seu consumo. Agora imagine um ser enfermo como esse associando-se a um encarnado. O que poderá advir de uma união como essa? Devemos ou não usar de todo o nosso amor e conhecimento para ajudá-los? ”
-     “Isso aqui antigamente era um antro onde drogados se encontravam para dividir as doses e alucinações. Hoje desativado no plano material, já não existe mais, entretanto, nosso irmãozinho continua preso a essa realidade, deixado para trás pelos comparsas que não queriam mais dividir com ele as doses do vício. Desde então ele está preso a essa realidade, numa sujeição muito forte, nesse estado lamentável de sofrimento e demência.”   
Só então caiu a ficha para mim! Entendi imediatamente o porque de ser trazido aquele cativeiro de dor. Quando encarnado, por alguns anos trabalhei como enfermeiro na cidade de São Paulo. Um dia recebi proposta de um médico conhecido oferecendo-me vaga numa clínica para dependentes. O salário era um pouco melhor que o do hospital e só por isso aceitei, mas nunca tive apreço por esse emprego. Nós os enfermeiros mantínhamos um maior contato com os internos do que os próprios médicos, que atendia-os de modo mais breve e faziam o receituário de medicamentos, que nós os enfermeiros deveríamos aplicar. Só que o trato com os dependentes não era fácil, as vezes agressivos, as vezes tão contenciosos na credibilidade. Vi todo tipo de complicações causada pelas drogas e pelos dependentes, e, na minha ignorância, eu os percebia como depravados, fracos de alma e vendidos aos vícios. Algumas vezes tive medo e outras vezes nutri certa raiva contra eles. Isso se deu por todo período desse trabalho. Porém, depois dos cursos e conteúdos programáticos que a clínica exigia no currículo de formação dos seus enfermeiros, fui entendendo que a drogadição é uma doença grave. Após alguns anos trabalhando ali, mesmo com os donos da clínica prometendo aumentar o meu salário, eu não suportei mais aquele emprego. O trabalho junto ao toxicodependente é muito cansativo, física e mentalmente. É muito difícil a assistência a usuários de drogas sem o devido amor no coração, não bastam conhecimento e abordagens clínicas de vanguarda se o amor não interceder todo o tempo, o tempo todo. E realmente, naquela época, faltava-me amor no coração.
Depois do desencarne, desandei a pensar nos meus erros da Terra e esse era um dos que me atormentava de quando em vez. A falta de paciência e de amor que tive com aqueles enfermos da clínica. Intimamente rogava para que eles me perdoassem o coração de frieza e tanto desamor.
De repente senti que essas minhas reflexões eram percebidas nitidamente pela Entidade Amiga e envergonhei-me notando que Ela lia-me tal qual um livro aberto. Todavia com muita ternura me falou:
-     “Não se preocupe meu irmão, foi o seu arrependimento que te trouxe até aqui, nós não estamos nessa jornada para julgar a ninguém e sim para socorrer. Sempre é tempo para refazermos a rota de enganos e recomeçar de um outro modo. Lamentar o que deixamos de fazer a beneficio próprio e dos outros é a estréia no nosso crescimento. A começar pelo nosso arrependimento e vontade genuína de ajudar, o bom Deus nos patrocina as oportunidades. Não é a toa que tenhas trabalhado na área da enfermagem, pois já vinhas com carências de responsabilidade nessa área. Hoje vemos intimamente no teu ser o desejo de socorrer o próximo sem as barreiras do egoísmo que te impediram de fazer o teu melhor antes .”
-     “E podemos começar prontamente auxiliando esse irmão sofredor a sair dessa situação lamentável. Já nos aguarda em Casa Espírita próxima, Irmãos especialistas nesse tipo de atendimento, dedicadíssimos no amparo a entidades nessas condições de telementação destrutiva, que serão amorosos professores no seu ingresso na equipe de trabalhadores do bem.
Ensejando a boa ocasião dessa mensagem, gostaríamos de chamar a atenção as Casas Espíritas no seu papel como verdadeiros pronto-socorros no trabalho de prevenção e amparo as vítimas da drogadição, nos dois planos da existência, problema esse que tem arruinado vidas e famílias inteiras, que tem crescido bastante no Brasil e mundo afora. Devemos nos preparar devidamente, com mais estudo e classificando melhor os atendimentos desse porte, que necessitam, na maioria das vezes, um acompanhamento menos superficial como o que têm sido prestado. As mediúnicas qualificadas para tanto, seus médiuns e o corpo de trabalhadores da casa, em especial os atendentes fraternos (que deveria agora já contar com um maior número de auxiliares), carecem munir-se de melhores esclarecimentos para apoio embasado aos enfermos e aos familiares que sofrem e desajustam-se rapidamente nessa “guerra” contra o vício das drogas. Apoio irrestrito aos que afrontam essa luta, colocando todos os nossos recursos socorristas a disposição dos familiares que sofrem, bem como, dos dependentes aprisionados. Formar evangelizadores que saibam abordar com conhecimento esse tema, conscientes dos perigos na sociedade para que o esclarecimento da juventude e da infância seja patrocinado de forma natural e repetitiva, minimizando o número daqueles que se entregam aos perigos de experimentar a droga e tornar-se um dependente. Educar a todos para de maneira alguma evitar o viciado que chegue até a Casa e se ache submetido ao desejo constante de consumir a droga, e sim, envolvê-lo com muito carinho e apoio de todos.
Diante dos fatos apresentados, que o Amado Médico das nossas almas, Jesus, nos auxilie a manter a mente vigilante e o coração pulsando de amor para juntos, como uma equipe de cuidadores caprichosos, podermos melhor cooperar no socorro aos nossos irmãos prisioneiros dos vícios.


Rodrigo – um enfermeiro na Terra e agora um aprendiz no plano espiritual dos cuidados autênticos que só o amor pode patrocinar  aos escravizados pelas drogas. - Mensagem psicografada no domingo 24 de novembro de 2013 pelo médium Jorge Antônio

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