Surpresa e
aprendizado
Fui levado a um local
solitário. Caminhei um pouco por uma trilha estreita e avistei uma casa. Na
verdade era um casebre velho. Portas escoradas, pintura descascada e suja,
janelas envelhecidas com vidros quebrados. Telhado semi-destruído, em precárias
condições. Tive a certeza que era desabitada. A sua volta o mato crescia livremente
tomando os poucos degraus da escadinha assolada e torta que levava a sacada da
frente.
A Entidade que levou-me aquele
sítio, convidou-me a entrar. Não entendia porque estava ali. Mesmo confiando,
tive medo de entrar na casa. Ela afiançou-me,
“está tudo bem, nada a temer. Entre!”.
Com passos cautelosos subi
os degraus quase soltos e andei com cuidado sobre o piso de madeira apodrecida.
A porta estava escorada e tudo era tão real e nítido que pude ver as dobradiças
torcidas e enferrujadas na porta de madeira velha. Entrei e não pude ver nada
de imediato naquela penumbra. O cheiro era fétido e incomodava. Ouvi um gemido
fraco. Fiquei parado, procurei pela Entidade Amiga e já não a percebi do meu
lado. Novamente um certo temor e uma ojeriza do local. Aos poucos meus olhos
foram se acostumando e pude ver melhor o ambiente. Notei a sujeira entre os
destroços, muitas seringas por toda parte, papéis, latas e garrafas de bebidas
vazias no chão.
Fui caminhando até chegar na
parte que me pareceu ser a cozinha, agora bem destruída, seguia o som do gemido.
Encostado em algo que tinha ares de ser um balcão, assustei-me ao ver um
espírito magérrimo, em pé, curvado sobre esse balcão, gemia baixinho. O ser
parecia estar sofrendo um processo de dor inexprimível. Contorcia-se todo e
gemia. Recebi uma forte impressão de que deveria orar. Elevei meus pensamentos
ao Alto e pedi socorro para o sofredor.
Observei então seu corpo cadavérico.
Suas veias eram grossas e saltavam dos braços pálidos e entrezilhados. Notei
que haviam picadas por todo seu corpo, entre os dedos haviam essas feridas também,
pareciam picadas de agulha que infeccionaram. Seus olhos estavam esvoaçados, pareciam vazios e sem vida.
Totalmente fora de si, parecia um quase zumbi com aquele olhar gazeado.
Notei-lhe a magreza das costas ossudas. Uma calça velha caia-lhe da cintura,
era um trapo de jeans sujo e roto. Uma corda de sisal servia-lhe de cinto segurando
a calça na cintura fina. A barriga escovada para dentro, as costelas à mostra e
o peito anverso, quase cavo no arcabouço do tórax.
Apiedei-me do ente sofredor
e derramei algumas lágrimas de aflição por vê-lo naquela situação deplorável.
Ele virou, mas não parecia ver-me, notei-lhe então o rosto, a barba hirta,
retesada na face escavada, os olhos bem fundos e ao redor deles uma concha
negra com bolsões sombrios. Do nariz escoria um líquido amarelo-esverdeado, os
dentes podres e a língua cheia de cortes. Fedia como algo apodrecido por dias.
Certamente se qualquer encarnado pudesse vê-lo naquelas condições, acreditaria
tratar-se de uma monstruosidade das trevas.
Novamente, com clemência e
sem saber que atitude tomar, orei com todo fervor da minha alma, pedindo por
ajuda. A mesma Entidade que me trouxera até ali, apareceu nimbada de luz. Sem a
necessidade de abrir a boca, disse-me com afabilidade.
- “Confie, sua lição continua. Concentre-se um pouco mais no pensamento do
nosso irmão. Aproxime-se dele. Não se preocupe, ele não pode notar-lhe a
presença.”
Acheguei-me e concentrei-me
melhor no pensamento condensado. Vi então convergir em mim mesmo o que ele
balbuciava intimamente. Abismei-me com os pensamentos que agora pareciam meus.
Era uma única palavra repetida incessantemente. Cocaína, cocaína, cocaína,
cocaína... Aquilo não cessava, era uma monoidéia dominante, constante,
fortíssima, não me dava um único segundo de descanso. Apavorado, chorei ao
sentir em mim mesmo seu desespero e dor.
Nesse momento a Entidade de
Luz desprendeu-me e disse:
- “Está vendo meu irmão a situação deplorável de um viciado em drogas no
mundo astral? É bem pior a situação, piora muito do lado de cá. Além de
comprometerem o corpo perispiritual, comprometem totalmente a mente junto a
dependência, pois nada mais fazem ou buscam no lado de cá a não ser as drogas e
os parceiros para o seu consumo. Agora imagine um ser enfermo como esse
associando-se a um encarnado. O que poderá advir de uma união como essa?
Devemos ou não usar de todo o nosso amor e conhecimento para ajudá-los? ”
- “Isso aqui antigamente era um antro onde drogados se encontravam para
dividir as doses e alucinações. Hoje desativado no plano material, já não
existe mais, entretanto, nosso irmãozinho continua preso a essa realidade,
deixado para trás pelos comparsas que não queriam mais dividir com ele as doses
do vício. Desde então ele está preso a essa realidade, numa sujeição muito
forte, nesse estado lamentável de sofrimento e demência.”
Só então caiu a ficha para
mim! Entendi imediatamente o porque de ser trazido aquele cativeiro de dor.
Quando encarnado, por alguns anos trabalhei como enfermeiro na cidade de São
Paulo. Um dia recebi proposta de um médico conhecido oferecendo-me vaga numa clínica
para dependentes. O salário era um pouco melhor que o do hospital e só por isso
aceitei, mas nunca tive apreço por esse emprego. Nós os enfermeiros mantínhamos
um maior contato com os internos do que os próprios médicos, que atendia-os de
modo mais breve e faziam o receituário de medicamentos, que nós os enfermeiros
deveríamos aplicar. Só que o trato com os dependentes não era fácil, as vezes
agressivos, as vezes tão contenciosos na credibilidade. Vi todo tipo de
complicações causada pelas drogas e pelos dependentes, e, na minha ignorância,
eu os percebia como depravados, fracos de alma e vendidos aos vícios. Algumas
vezes tive medo e outras vezes nutri certa raiva contra eles. Isso se deu por
todo período desse trabalho. Porém, depois dos cursos e conteúdos programáticos
que a clínica exigia no currículo de formação dos seus enfermeiros, fui
entendendo que a drogadição é uma doença grave. Após alguns anos trabalhando
ali, mesmo com os donos da clínica prometendo aumentar o meu salário, eu não
suportei mais aquele emprego. O trabalho junto ao toxicodependente é muito
cansativo, física e mentalmente. É muito difícil a assistência a usuários de
drogas sem o devido amor no coração, não bastam conhecimento e abordagens
clínicas de vanguarda se o amor não interceder todo o tempo, o tempo todo. E
realmente, naquela época, faltava-me amor no coração.
Depois do desencarne, desandei
a pensar nos meus erros da Terra e esse era um dos que me atormentava de quando
em vez. A falta de paciência e de amor que tive com aqueles enfermos da clínica.
Intimamente rogava para que eles me perdoassem o coração de frieza e tanto desamor.
De repente senti que essas
minhas reflexões eram percebidas nitidamente pela Entidade Amiga e
envergonhei-me notando que Ela lia-me tal qual um livro aberto. Todavia com
muita ternura me falou:
- “Não se preocupe meu irmão, foi o seu arrependimento que te trouxe até
aqui, nós não estamos nessa jornada para julgar a ninguém e sim para socorrer.
Sempre é tempo para refazermos a rota de enganos e recomeçar de um outro modo.
Lamentar o que deixamos de fazer a beneficio próprio e dos outros é a estréia no
nosso crescimento. A começar pelo nosso arrependimento e vontade genuína de
ajudar, o bom Deus nos patrocina as oportunidades. Não é a toa que tenhas
trabalhado na área da enfermagem, pois já vinhas com carências de responsabilidade
nessa área. Hoje vemos intimamente no teu ser o desejo de socorrer o próximo
sem as barreiras do egoísmo que te impediram de fazer o teu melhor antes .”
- “E podemos começar prontamente auxiliando esse irmão sofredor a sair
dessa situação lamentável. Já nos aguarda em Casa Espírita próxima, Irmãos
especialistas nesse tipo de atendimento, dedicadíssimos no amparo a entidades nessas
condições de telementação destrutiva, que serão amorosos professores no seu
ingresso na equipe de trabalhadores do bem.
Ensejando a boa ocasião
dessa mensagem, gostaríamos de chamar a atenção as Casas Espíritas no seu papel
como verdadeiros pronto-socorros no trabalho de prevenção e amparo as vítimas
da drogadição, nos dois planos da existência, problema esse que tem arruinado
vidas e famílias inteiras, que tem crescido bastante no Brasil e mundo afora.
Devemos nos preparar devidamente, com mais estudo e classificando melhor os
atendimentos desse porte, que necessitam, na maioria das vezes, um
acompanhamento menos superficial como o que têm sido prestado. As mediúnicas
qualificadas para tanto, seus médiuns e o corpo de trabalhadores da casa, em
especial os atendentes fraternos (que deveria agora já contar com um maior número
de auxiliares), carecem munir-se de melhores esclarecimentos para apoio
embasado aos enfermos e aos familiares que sofrem e desajustam-se rapidamente nessa
“guerra” contra o vício das drogas.
Apoio irrestrito aos que afrontam essa luta, colocando todos os nossos recursos
socorristas a disposição dos familiares que sofrem, bem como, dos dependentes
aprisionados. Formar evangelizadores que saibam abordar com conhecimento esse tema,
conscientes dos perigos na sociedade para que o esclarecimento da juventude e
da infância seja patrocinado de forma natural e repetitiva, minimizando o
número daqueles que se entregam aos perigos de experimentar a droga e tornar-se
um dependente. Educar a todos para de maneira alguma evitar o viciado que
chegue até a Casa e se ache submetido ao desejo constante de consumir a droga,
e sim, envolvê-lo com muito carinho e apoio de todos.
Diante dos fatos
apresentados, que o Amado Médico das nossas almas, Jesus, nos auxilie a manter
a mente vigilante e o coração pulsando de amor para juntos, como uma equipe de
cuidadores caprichosos, podermos melhor cooperar no socorro aos nossos irmãos
prisioneiros dos vícios.
Rodrigo – um enfermeiro na Terra e agora um aprendiz no plano espiritual dos
cuidados autênticos que só o amor pode patrocinar aos escravizados pelas drogas. - Mensagem psicografada no domingo 24 de novembro de
2013 pelo médium Jorge Antônio
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