quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

CONTINUIDADE DOS ABSURDOS



Continuidade dos absurdos

Se és uma daquelas criaturas que não acreditam em Deus, não percas tempo com esse texto enfadonho. Se achardes que a alma deve erguer-se sobre todo terreno úmido e pantanoso com nobreza de caráter, pitadas de modéstia, benignidade, luta e sacrifício, convictamente segura da existência  de Deus, vai então, continuas a ler.
Devo confessar que a verdade entre nós é um hóspede, fica alojada por mui pouco tempo em nossa casa. Nas terras daqui sei que ela não reside, vem de mundos longínquos, aqui torna-se apenas um transeunte que surge para examinar as sensações da alma humana.
Sendo descrente, ou, crédulo, devemos todos reconhecer a morte como fronteira onde algo finda, nem que seja a breve passagem pela carne. Só não podemos ser tão covardes a ponto de adiantá-la tomando a dianteira da insensatez ao suicídio, maior ruína de todo ser. Durante o intervalo do que chamamos vida, embora sejamos um gênero de seres contraditórios, vivamos a reproduzir e a refletir excelência dilatando o nosso pensamento até onde nos permita todo o fundamento.
Somos juntos bilhões de criaturas habitando esse espaço terráqueo e devemos convir que, embora pareçamos tecnologicamente desenvolvidos, ressemeamos em momentos aquele espécime hominídeo primitiva, há involuções e contratempos da alma humana que nos assusta e não necessitamos ir aos livros da história para vê-los patentes na sociedade. Extermínio, genocídio, filicídio, parricídio, guerras absurdas e outras barbáries continuam a nos assombrar.
Mesmo que muitos não queiram ouvir, Deus continua a semear uma justiça inaudita cheia de benevolência. Mas tudo depende de como o homem governa as suas paixões. O critério com que imprime suas ações, exteriorizando o que guarda nos crisóis do coração é o que lhe trará um estado de fortuna ou desdita.
Até sejam reduzidos ao arrasamento esses demônios que teimam chocar as maneiras, a criatura terá de conviver com os desacordos da própria alma, sendo esse o motivo para que alguns nasçam com os andrajos da pobreza experimentando os dissabores da existência, quando ao seu lado outros saboreiam a opulência de patrimônio, mas do lodo e do vaso destruído nascem belas flores, e, por vezes, nos palácios o brilho do ouro alucina a mente acanhada.
Claro que haveremos de convir que tantos desregramentos devem ser passíveis de punição sendo essa justiça Divina inevitável. Não que Deus se hasteie juiz em cada um desses casos, acredito eu que a própria diretriz da alma relapsa regula os pontos de dor regenerante. Quem semeia o grão salubre, há de colher frutescência substancial. Aquele que não planta e ainda destrói o plantio vizinho haverá de caminhar por arbustos espinhosos até alcançar de novo o campo da gramínea verde onde possa plantar novamente.
Assim testemunhamos a vida dos abismos e das sombras, onde o sofrimento rotula e a dor grita profunda na loucura das mentes, sobe esse a terra para ser o órfão sem pai, o mendicante da pobreza, o cego sem luz, o enfermo do corpo, o operário sem trabalho, os escravos das ordens alheias, a viúva sem sustento, o habitante das misérias sociais, dos infortúnios e das calamidades. E vozes gritam por aí, “que injusto esse deus!”. Será?
Se não conseguimos ser justos com Deus, sejamos convictos e equitativos nas nossas considerações. Arrazoemos que, se ferimos, vamos de ser feridos, se fizemos sangrar, sangraremos igualmente! De fácil entendimento. Se nos recusamos a obedecer ou a cumprir a boa ordem, que só nos haveria de trazer contentamento, é claro que no futuro cabe obrigarmo-nos na execução dela, de forma forçosa que seja, para nos desencobrirmos do seu efetivo ensinamento. Se deixamos esquinas de rebarbas onde outros possam vir a cortar-se, somos nós que teremos de vir apará-las, ninguém mais.
O homem é produto dele mesmo, o meio em que veio viver é a multiplicação das causas.
Digo assim, esforcemo-nos, portanto, por sermos absolutamente honestos, úteis, abnegados nos nossos propósitos, idealistas imparciais da verdade, amantes das boas qualidades, companheiros dos que atuam no bem, serviçais do espírito e não somente da matéria.
Que o ingrediente seja amor, colocado sem medidas em todos os relacionamentos e praticas que desempenhemos. Que nossos talentos deixem transparecer a grandiosidade da obra revelando a capacidade inventiva que possuem os que amam, que se doam, leais na admissão dos próprios enganos. Juízes severos não dos outros, mas, deles mesmos, reconhecendo a inadvertência no caminho da iluminação que ainda falta palmilhar.
Que envidemos esforços para trabalhar o íntimo da mesma forma que empregamos os esforços para nos equiparmos de conforto e bens.
Favoreçamos a vida em todos os seus aspectos e sejamos portadores da palavra de ânimo e conforto para os menos apadrinhados do mundo.
Esgotemos todas as nossas preces, com fé, mas não nos esqueçamos que nos cabe agir, trabalhar e abraçar as lutas com coragem.
Tenhamos gratidão, não só de palavras, mas de coração.
Sejamos cordiais, com o ignorante, com o menor que nós, com o bruto, com aquele que presume muito de si, com o pobre de alma, observantes sensíveis e irreduzíveis do amor.
E não devemos temer a morte quando bem vivemos, deve sim, temê-la, aquele que fez pouco uso das ferramentas que Deus emprestou, aviltando os próprios dias nas paixões rasas e na planície das conquistas da falta de moral e comedimento.
Asas demoram para crescer, mas quem as desenvolve, jamais voltará querendo rastejar no chão.               

Camilo

Mensagem recebida na FEIS, terça dia 24 de junho de 2014, pelo médium Jorge Antonio

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