Continuidade dos absurdos
Se és uma daquelas
criaturas que não acreditam em Deus, não percas tempo com esse texto enfadonho.
Se achardes que a alma deve erguer-se sobre todo terreno úmido e pantanoso com
nobreza de caráter, pitadas de modéstia, benignidade, luta e sacrifício, convictamente
segura da existência de Deus, vai
então, continuas a ler.
Devo confessar que a
verdade entre nós é um hóspede, fica alojada por mui pouco tempo em nossa casa.
Nas terras daqui sei que ela não reside, vem de mundos longínquos, aqui
torna-se apenas um transeunte que surge para examinar as sensações da alma
humana.
Sendo descrente, ou,
crédulo, devemos todos reconhecer a morte como fronteira onde algo finda, nem
que seja a breve passagem pela carne. Só não podemos ser tão covardes a ponto
de adiantá-la tomando a dianteira da insensatez ao suicídio, maior ruína de
todo ser. Durante o intervalo do que chamamos vida, embora sejamos um gênero de
seres contraditórios, vivamos a reproduzir e a refletir excelência dilatando o
nosso pensamento até onde nos permita todo o fundamento.
Somos juntos bilhões
de criaturas habitando esse espaço terráqueo e devemos convir que, embora
pareçamos tecnologicamente desenvolvidos, ressemeamos em momentos aquele
espécime hominídeo primitiva, há involuções e contratempos da alma humana que
nos assusta e não necessitamos ir aos livros da história para vê-los patentes na
sociedade. Extermínio, genocídio, filicídio, parricídio, guerras absurdas e
outras barbáries continuam a nos assombrar.
Mesmo que muitos não
queiram ouvir, Deus continua a semear uma justiça inaudita cheia de
benevolência. Mas tudo depende de como o homem governa as suas paixões. O
critério com que imprime suas ações, exteriorizando o que guarda nos crisóis do
coração é o que lhe trará um estado de fortuna ou desdita.
Até sejam reduzidos ao
arrasamento esses demônios que teimam chocar as maneiras, a criatura terá de
conviver com os desacordos da própria alma, sendo esse o motivo para que alguns
nasçam com os andrajos da pobreza experimentando os dissabores da existência,
quando ao seu lado outros saboreiam a opulência de patrimônio, mas do lodo e do
vaso destruído nascem belas flores, e, por vezes, nos palácios o brilho do ouro
alucina a mente acanhada.
Claro que haveremos de
convir que tantos desregramentos devem ser passíveis de punição sendo essa
justiça Divina inevitável. Não que Deus se hasteie juiz em cada um desses
casos, acredito eu que a própria diretriz da alma relapsa regula os pontos de
dor regenerante. Quem semeia o grão salubre, há de colher frutescência
substancial. Aquele que não planta e ainda destrói o plantio vizinho haverá de
caminhar por arbustos espinhosos até alcançar de novo o campo da gramínea verde
onde possa plantar novamente.
Assim testemunhamos a
vida dos abismos e das sombras, onde o sofrimento rotula e a dor grita profunda
na loucura das mentes, sobe esse a terra para ser o órfão sem pai, o mendicante
da pobreza, o cego sem luz, o enfermo do corpo, o operário sem trabalho, os
escravos das ordens alheias, a viúva sem sustento, o habitante das misérias
sociais, dos infortúnios e das calamidades. E vozes gritam por aí, “que injusto
esse deus!”. Será?
Se não conseguimos ser
justos com Deus, sejamos convictos e equitativos nas nossas considerações.
Arrazoemos que, se ferimos, vamos de ser feridos, se fizemos sangrar,
sangraremos igualmente! De fácil entendimento. Se nos recusamos a obedecer ou a
cumprir a boa ordem, que só nos haveria de trazer contentamento, é claro que no
futuro cabe obrigarmo-nos na execução dela, de forma forçosa que seja, para nos
desencobrirmos do seu efetivo ensinamento. Se deixamos esquinas de rebarbas
onde outros possam vir a cortar-se, somos nós que teremos de vir apará-las,
ninguém mais.
O homem é produto dele
mesmo, o meio em que veio viver é a multiplicação das causas.
Digo assim,
esforcemo-nos, portanto, por sermos absolutamente honestos, úteis, abnegados
nos nossos propósitos, idealistas imparciais da verdade, amantes das boas
qualidades, companheiros dos que atuam no bem, serviçais do espírito e não
somente da matéria.
Que o ingrediente seja
amor, colocado sem medidas em todos os relacionamentos e praticas que
desempenhemos. Que nossos talentos deixem transparecer a grandiosidade da obra
revelando a capacidade inventiva que possuem os que amam, que se doam, leais na
admissão dos próprios enganos. Juízes severos não dos outros, mas, deles
mesmos, reconhecendo a inadvertência no caminho da iluminação que ainda falta
palmilhar.
Que envidemos esforços
para trabalhar o íntimo da mesma forma que empregamos os esforços para nos
equiparmos de conforto e bens.
Favoreçamos a vida em
todos os seus aspectos e sejamos portadores da palavra de ânimo e conforto para
os menos apadrinhados do mundo.
Esgotemos todas as
nossas preces, com fé, mas não nos esqueçamos que nos cabe agir, trabalhar e
abraçar as lutas com coragem.
Tenhamos gratidão, não
só de palavras, mas de coração.
Sejamos cordiais, com
o ignorante, com o menor que nós, com o bruto, com aquele que presume muito de
si, com o pobre de alma, observantes sensíveis e irreduzíveis do amor.
E não devemos temer a
morte quando bem vivemos, deve sim, temê-la, aquele que fez pouco uso das
ferramentas que Deus emprestou, aviltando os próprios dias nas paixões rasas e
na planície das conquistas da falta de moral e comedimento.
Asas demoram para
crescer, mas quem as desenvolve, jamais voltará querendo rastejar no chão.
Camilo

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