
Minha Bahia
Os
trabalhadores associados à causa do bem são milhares, divididos em diversos
núcleos espalhados pelo Brasil. Os que estão diretamente ligados a essa Casa
fraternal são numerosos também. Além dos que mourejam juntos na esfera física,
centenas de servidores se dividem em tarefas sem conta aqui no plano
espiritual.
Esse
que traça essas despretensiosas linhas na noite de hoje, conta-se entre os
afortunados que devota seu tempo junto ao Amor e Caridade presididos por
Scheilla.
Igualmente
baiano, como a grande maioria aqui presente, desde a infância rendi-me aos
encantos dessa terra maravilhosa, e não raro ainda sinto invadir-me um
saudosismo bom, nas lembranças genuínas da passagem pela carne, quando vivi na
saudosa Salvador. Nesse momento, deixo me levar pela tela do pensamento,
regressando aos sítios de outrora na minha amada Bahia.
Hoje
foi me dada à oportunidade de trazer aos irmãos um pouco de nostalgia. Sabemos
que muitos jovens não poderão fazer distinção desse tempo antigo que vamos nos
referir aqui, dificilmente registrando qualquer afinidade com as nossas deliciosas
lembranças. Nada obstante outros já serão tocados pelos recortes,
sensibilizados pela narrativa que trata da bela e pacata Salvador de antigamente
e das lutas do Espiritismo na capital baiana.
Cidade
das praias mais belas, Salvador têm crescido bastante com uma expansão
imobiliária vertiginosa, assinalando os tempos do progresso financeiro, mas
essa encosta banhada pelo oceano atlântico não foi sempre assim, agitada por
essa correria desenfreada.
A
serenidade era uma condição das coisas para quem vivia na Salvador antiga.
Periperi ainda era local e reunião de veranistas, uma das mais belas paisagens
da Baía de Todos os Santos, praia límpida e centro de entretenimento dos
moradores e vizinhos do bairro.
A
cidade toda mais parecia uma província bucólica, onde reinava a civilidade de
um povo pacato, amorável e bem humorado. Um pólo de riqueza cultural enorme,
com diferentes modos e costumes de vida.
Eram
os dias primevos do Espiritismo baiano, que só encontrou guarida na sociedade
através de muitas lutas desdobradas nos dois planos da vida. Ser espírita na
Bahia católica de então não era fácil meus caros, as refutações e oposições
eram muitas, foram homens valorosos esses os que lutaram para implantar e
solidificar a Doutrina em nosso estado.
Por
comprometimento e respeito é que destacamos com extremado carinho o amigo
lingüista, poeta, jornalista, José Florentino, o tão conhecido Petitinga, que
muito doou de si próprio, erguendo e divulgando o Espiritismo na Bahia, numa
época difícil, quando o espírita tinha que ir escondido ao culto, calar-se
diante da massa para não sofrer admoestações do povo insensível à luz que hoje
se propaga Brasil afora, como expoente e verdadeira Pátria do Evangelho,
coração do Espiritismo e do mundo.
Nosso
saudosismo rememora a terra de antes, onde as bênçãos do Senhor matizaram-na de
reconhecível beleza. A juventude era tão diferente da atual, os valores eram
outros. A convivência era azeitada pelo calor humano da vizinhança amiga e
cordial, todos se conheciam. Na Avenida Sete víamos as cadeiras postas do lado
de fora das casas, onde as famílias sentavam para a conversação do final de
tarde. A Barra não passava de uma zona de veraneio, onde a burguesia procurava
descansar junto à brisa marinha que soprava do verão baiano.
Nessa
estação o eterno cartão postal, o Farol da Barra, recebia os casais enamorados,
que junto ao marco português assistiam embevecidos ao espetáculo sem igual do
pôr-do-sol na Baía famosa de Todos os Santos.
Salvador
era então cercada por grandes fazendas e sítios nessa minha época. As
fronteiras da cidade chegavam até o bairro de Amaralina, onde existia uma
grande fazenda, com uma bela lagoa, onde nadávamos e brincávamos quando criança
ainda.
Depois
a cidade foi espichando em direção a orla. A Pituba meus caros, onde hoje está
fincada a sede da nossa querida Casa, não passava do mesmo modo de uma grande
fazenda, que pertencia à família Silva, vinda de Minas Gerais. Hoje onde se encontra
a Fraternidade Espírita Irmã Scheilla não passava de um embrenhado de mata,
misturada a areia costeira, tendo até alguns rios já mortos.
Esse
bairro que foi se dividindo, doada muitas terras a apropriação do município,
hoje se traduz no grande pulmão comercial da cidade, com seus muitos e
diferentes comércios, empresas, lojas e shoppings. Não obstante os avanços,
essa desenfreada corrida financeira originou certo endurecimento a alguns
corações, determinando assim a importância da FEIS nesse sítio econômico, para
despertar aos esquecidos e dominados somente pela “ânsia das moedas”, a
verdadeira essência da vida, ressaltando a importância do real tesouro, o
espiritual, única estima que deva ocupar o melhor dos espaços no cadinho do
coração.
Revelando
ainda mais nosso saudosismo, vamos em frente até voltarmos a rever o belo
coqueiral de Itapuã. Centenas, milhares de coqueiros junto às areias alvas e
tão finas das dunas, banhando de intraduzível beleza o caminho de difícil
acesso ante o litoral turquesa do mar de Itapuã. Chegar nessa localidade se
traduzia numa verdadeira viagem para o soteropolitano da época. E a linda lagoa
do Abaeté, com seu cenário paradisíaco e suas lavadeiras a desfilar os lençóis
alvinitentes, lavando-os e logo secando-os ao sol da areia límpida e branquíssima.
Regressamos
a Rua Chile de outrora, a estreita e comprida rua onde a sociedade baiana
vestia-se a moda europeia para fazer o footing nas calçadas, de um lado e do
outro da avenida, moçoilas, rapazes e famílias inteiras passeavam e sentavam
nos cafés para prosear sobre a vida. De quando em quando o bonde cruzava os
trilhos centrais da área mais chique da cidade e se ouvia sua sineta, silvo de
lembranças de uma Bahia boêmia e tradicional que não existe nas recordações da
juventude atual.
Saíamos
ao encontro dos artistas, poetas, escritores e músicos no Largo 2 de Julho, que
fervilhava nas madrugadas de uma Bahia cultural. A “Roma Negra” era então uma
mistura de opiniões, de credos, de opulências, onde todos, ricos e pobres,
deixavam-se levar pelo jeito baiano de ser.
Foi
nesse cenário que a implantação de uma Federação Espírita na Bahia se deu com
certa luta e muitas dificuldades. A igreja católica desde muito fizera as pazes
com o “candomblé”, mas não aceitava bem a Doutrina dos Espíritos e os combates
que surgiram contra o Espiritismo foram intensos. A Federação depois de fundada
teve que mudar de endereço muitas vezes, as perseguições não foram poucas. Um senhorio,
quando locava seu imóvel, logo era pressionado pelos católicos para não renovar
o contrato.
Foi
com muito empenho, civilidade e apoio coletivo que Petitinga conseguiu reunir
forças, junto a outros confrades, para que o Espiritismo conhecesse a primeira
sede própria da sua Federação, abrigada no largo em frente ao terreiro da
Igreja de S. Francisco, onde até hoje as luzes do esclarecimento continuam a
sobejar às consciências no mesmíssimo endereço citado.
Os
confrontos a partir daí foram muitos. Considerado uma afronta a Igreja
Católica, Espíritas eram acusados de feiticeiros, de praticar sortilégios e
magias. Mas a luta da verdade tomou seu curso, chegando aos dias atuais, quando
testemunhamos o Espiritismo chegar às telas televisivas, ao cinema, às rádios,
as revistas, as matérias jornalísticas sem resistência alguma. Espipocam livros
grafados a dupla mão, por médiuns que a serviço da Espiritualidade disseminam a
mensagem do Consolador Prometido, que, como nos afirmam os Guias, tomará ainda
nesse século a sociedade brasileira por completo, difundindo para o resto do
mundo a mensagem da vida que não se extingue, da caridade, da fraternidade e do
amor que redime.
Esse,
meus irmãos, é o nosso mais valoroso trabalho junto a essa e qualquer outra
instituição espírita; O trabalho da divulgação da Doutrina, para que as
consciências empedernidas, as personalidades rudes e os corações revoltosos e
insensíveis venham a tomar consciência da luz, esclarecendo-se no amor e na
caridade.
Aqueles
que visitam essa Casa, como aqueles que aqui trabalham juntos, devem ter esse
propósito bem claro nos seus ideais, devendo buscar a Fraternidade não só para
receber os eflúvios da boa energia que dela emanam, mas também, para serem
células de testemunho da transformação que o Espiritismo ergue nas suas vidas.
Sendo
assim, aproveitando as belezas de uma noite artística, pintamos com cores bem
vivas e fortes o convite para que mais e mais pessoas encorpem e engrossem o
corpo dos trabalhadores do Bem, a serviço do nosso Mestre e Amigo Jesus Cristo.
Do
bom baiano, modesto trabalhador dessa Casa e amigo de todos...
Alfredo Dantas
Mensagem psicografada junto ao público no
trabalho de psicopictografia da Fraternidade Espírita Irmã Scheilla em
16/07/2011 pelo médium Jorge Antonio
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