Pés descalços
Começava um novo ano. Caminhava sozinho na areia da praia deserta, mantinha um diálogo confuso consigo mesmo. Era envolvido por inumeráveis questões que lhe desafiavam a mente.
De repente, sentindo a necessidade de parar, respirou profundamente a brisa do oceano. Aquietou-se e olhando de dentro para a natureza percebeu que as ansiedades o afogavam num mar de sentimentos desencontrados.
Sentou-se na areia e sentiu a água do mar molhar seus pés descalços. Serenando, deixou que o silêncio tomasse conta por instantes. Logo reiniciando o diálogo íntimo interminável. De repente, porém, sentiu algo diferente... Era como se conversasse com alguém, alguém que emanava paz e saber.
E como se perguntasse a si mesmo para obter respostas que ainda não compreendia, disse:
- Que dor é essa que sinto mas não consigo identificar? E a voz que vinha de dentro da sua mente respondia indulgente...
- É a dor da insatisfação que asfixia os humanos. Eles estão concentrados no ter, no querer e experimentam a tremenda pressão das suas necessidades não satisfeitas.
- Mas acho tão difícil viver nessa sociedade...
- Difícil seria não viver, não ter vida! ...Diria que viver sem se enganar, sem se iludir. Isso é que é difícil.
- Mas me sinto abatido, como se as minhas forças estivessem acabando, indo embora!
- Seu problema e o da grande maioria, é o apego a negatividade.
Não podemos negar que, no fim das contas, essa idéia da mentalidade totalmente sadia e positiva é inadequada para esse planeta. As influências são muitas para que isso aconteça. Os espíritos que os cercam, com superioridade em número, estabelecem alcance e controlam sentimentos e pensamentos. Inegável isso! Contudo, de certa forma, isso explica uma porção genuína da realidade desse globo. De que falta as pessoas certa consciência do todo. Que elas devem ficar mais alertas para não considerar uma coisa falsa como real, vivendo nas somas das muitas ilusões.
- Mas não é fácil isso! Como você diz, as influencias são muitas...
- Não! Não é fácil! Também não é difícil! É dificílimo! Mas é um exercício capital. Possivelmente a única maneira para abrir a mente para os níveis mais profundos da verdade.
- Porque você diz “possivelmente”? não tem certeza disso?
- Esse é exatamente o problema do ser humano, ele quer saber tudo na sua totalidade, ter certeza de tudo. Quando digo possivelmente, estou lhe dizendo “de um modo possível”, mas o mundo, o seu mundo, é cheio de opções.
- Entendo...
- Em outras palavras, estar alerta é identificar as coisas que o cercam e defini-las para você. Não importa o que elas representam para os outros, mas o que elas significam para você. As pessoas se imitam tanto que nem percebem quando perdem a própria identidade. Você tem que avaliar se para seu “eu” uma coisa é boa, mau ou indiferente. Não é identificar o que você quer, pois isso às vezes é mero capricho do ego, mas identificar se é bom, mau ou indiferente para o seu espírito.
- Como assim?
- Se você faz essas observações tem mais poder e controle sobre si mesmo. O observador, aquele que define as coisas, tem mais controle sobre aquele que o tenta influenciar. O influenciador obtém mais controle quando o observador deixa se entusiasmar, ou, teima em se manter na ausência de conhecimento. Aí é pior, pois o observador é manipulado e não quer nem saber disso.
- Muito complexo...
- E você acha que essas manipulações são apenas um conjunto de coisas sem nexo? Tem tantas coisas ligadas a elas num nexo comum, que as fazem complicadas, mas na verdade o observador é mais real e detém maior controle das coisas. Ele que ajuíza. Por isso é tão imprescindível a conscientização das pessoas para uma mudança das energias.
- Ainda vagando...
- Tudo bem. O vício que você tem é bom, mau ou indiferente ao seu espírito?
- Mau, tem me prejudicado!
- Então combata-o! Tente evitá-lo. Esteja alerta para o identificar e ir coibindo-o.
- Não é fácil!
- De novo - Não é fácil! Também não é difícil! É dificílimo! Mas é um exercício de capital importância para libertar seu EU! Ou faz ou vive no prejuízo das emoções!
- Verdade!
- Mentir é bom, mau ou indiferente ao seu espírito?
- Mas minhas mentiras são tão ingênuas...
- Não foi essa a pergunta, nem lhe acusei de nada. Mas vou reformulá-la. É melhor ser real ou fingir alguma coisa?
- Acho que ser real deve ser melhor, deve ser “bom” para o meu espírito.
- Então tente! Fique alerta! Pois tudo que é dissimulado abandona a realidade e cria outra, que é falsa.
- Mas tem coisas que tentamos ardentemente ocultar. Até para nos defender. Não?
- Seja apenas você! A energia que se gasta para criar uma imagem apresentada agride de certa forma o espírito. Qualquer mentira que você adote na ilusão de se proteger do mundo, deve ser confrontada, exatamente por não ser real, por ser ilusão.
- É... tenho lutado contra meus defeitos, contra as minhas fraquezas, mas não é simples abandoná-los.
- Você se questiona sobre eles. Que bom, isso indica que não está satisfeito. Não se pode é ficar nos questionamentos sem querer agir, sem querer mudar, como uma criança birrenta. Olha aí o que a vida tá te dizendo. Ela sempre fala ao nosso ouvido. Basta escutar. Quando exercita a consciência plena sobre suas maneiras e seus pensamentos, com um tempo nesse exercício você progride. Você se experimenta de uma nova maneira, em lugar de aceitar as coisas que vêm de dentro passivamente e agir tantas vezes de forma repetida e automatizada, você detém controle sobre elas, obtém percepção do motivo pelo qual se comportava de certa forma e com isso entende melhor também as outras pessoas e suas fragilidades. Essa compreensão torna-o livre, te dá forças e mais objetividade na vida. Em outras palavras, você desperta.
- Vou tentar atingir isso. Todavia a gente se esquece.
- Não tente, faça apenas. Abandone o ciclo autoperpetuador. Você não tem que gastar muita energia com isso, despender muito esforço. Apenas fique alerta! Se deixou passar algo, tudo bem, mas volte o mais breve ao estado de vigilância dos seus sentidos. Você nem precisa entrar num estado deliberado de meditação sobre isso. Por si mesmos, seus sentimentos, atitudes e pensamentos positivos criarão mais sentimentos, atitudes e pensamentos positivos. O mesmo se dará em situações negativas, o princípio da perpetuação é igual.
- É uma luta viu!
- Perceba que só há luta quando há oposições.
- Verdade.
- Do lado de cá percebemos facilmente quantos papéis o ser humano vive numa existência.
- O processo de mudança é inevitável eu sei. Aquela coisa de ou vai “pelo amor ou pela dor”.
- Fatalmente. Mas o processo de mudança acontece diferente para cada um de nós, sempre em níveis. Emocional e psíquico. Vamos aprendendo a nos tornarmos um tipo diferente do que somos hoje, melhor e mais conscientes, claro. No lado emocional, temos que abandonar nossos medos, comportamentos derrotistas, crenças tolas, ilusões, atitudes erradas. Temos que parar de nos sabotar. Mas a verdadeira mudança ocorre mesmo no nível psíquico, naquele relativo ao espírito, junto as suas faculdades morais e intelectuais. Ela motiva, quando consciente, uma mudança radical de identidade além da personalidade humana, pois atua na alma.
- Porque então tantas pessoas combatem o Espiritismo? Porque enfrento tanta oposição dentro da minha família?
- Combatem as vezes o que desconhecem em profundidade. Apenas acompanham, sem sentir, uma corrente qualquer. Também certas crenças levam alguns ao fanatismo de ideal. Outros o combatem por apego a realidade que criaram para si, por ignorância. Mas, inevitavelmente o despertar do lado espiritual chegará para cada um.
- Penso que já estou buscando o meu!
- Lembre! Uma busca completa leva tempo!
Tinha sido um bom diálogo. Agora ele se afastava, de pés descalços, cheio de interpretações e vontades, agradecido aos influxos que vieram não sabia de onde, não sabia por quem.
É um prazer enorme, quando o espírito por quem temos afeição e cuidados, decide ouvir a comunicação de dentro. Percebi em mim mesmo que esse era realmente um novo ano que iniciava, um ano de mudanças, não só para ele, mas para muitos que como ele desejam a luz. Senti que as coisas caminhavam para transformações. Serão anos difíceis talvez, esses que nos aguardam, mas preciosos de aprendizado. Alguns serão marcados pelo despertar, mesmo que pela dor, mas essa humanidade têm que enfrentar essa “dor comunitária” para reduzir o orgulho e o egoísmo que ainda prevalece nela. É tempo de mudanças, de gentileza, e, de esperanças.
Ainda na praia, me perdi na exuberância da natureza. Percebi num instante que estava tudo ali, tão fácil, tão informal. Alegria desmedida, abundância e respostas no silêncio da calma que o oceano ajuda a embalar com suas ondas, como se ninasse todas as ansiedades humanas e fizesse dormir o homem, essa criança mimada. Mas necessitei morrer o corpo e estar espírito para perceber a simplicidade do viver.
Restou-me olhar a vastidão do céu azul que emoldura formosamente essa Bahia e agradecer ao Bom Deus as oportunidades que temos tido para crescer e reexperimentar os mesmos erros, decidindo por nós mesmos se queremos continuar com eles, se são para nós bons, maus, ou, indiferentes.
Simão
Mensagem recebida no dia 13 de janeiro de 2015, pelo médium Jorge Antônio.
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